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BARROZO: "GANHAR FAZ PARTE DA FORMAÇÃO"

Publicado às 18h30 desta terça-feira, 2 de Março de 2021.

Um dos dirigentes mais vitoriosos na base do país, e coordenador de futebol das categorias amadoras do Santos desde outubro do ano passado, Fabio Barrozo, pediu demissão do cargo.

O profissional disse que pretende voltar a realizar consultorias para instituições esportivas e que tem convite para trabalhar em outro clube no Brasil.

No fim da manhã desta terça-feira (2), entramos em contato com o ex-funcionário do Santos. De início, ele não queria dar entrevista, porém, conseguimos persuadir o mesmo que topou nos dar uma exclusiva, via telefone. Segue o conteúdo abaixo:

ADEMIR QUINTINO: Qual o motivo que levou você pedir demissão? Aliás, você pediu demissão ou foi demitido?

FÁBIO BARROZO: "Eu pedi demissão, porque eu não vim aqui atrás do salario que o Santos poderia me proporcionar, eu vim atrás de um planejamento de tornar a base que mais revela no país, em uma base reveladora e que ganhe títulos, há muito tempo o Santos não ganha um titulo expressivo na base, vou morrer com a minha convicção, ganhar títulos faz parte da formação , não é prioridade? Não, mas você não pode se acostumar a perder e achar que esta tudo normal, não é o meu pensamento." 

AQ: Mas é possível revelar vencendo? Tendo alto rendimento nos dois propósitos de uma só vez?

FB"Respeito quem pensa ao contrario, mas podem acreditar, dá para formar ganhando títulos. Você forma atletas vencedores com auto estima elevada , e infelizmente vi que iria demorar um pouco para mudarmos a mentalidade, ressaltando que essa é  minha opinião pessoal. Já deu certo comigo e vem dando certo em outros clubes, mesmo assim teve jornalista que falou que eu fui demitido, ai fui obrigado a postar hoje no meu twiter a fotografia do meu pedido de demissão assinado por mim e protocolado pelo clube. Se for para eu ficar em um clube só para ficar recebendo e não puder implantar minha ideias, eu preciso dar espaço para outras pessoas , e lembrando que além do mais, com essa atitude de pedir demissão, abri mão de indenização e outros direitos. Eu vim aqui para trabalhar e não para ser cabide de emprego e graças a deus estou com saúde e posso ir para outro lugar, sendo que o meu carinho e agradecimento pelo clube serão eternos , e estarei na torcida por toda diretoria, profissionais e atletas que eu convivi nesse período"

AQ: Você tinha carta branca para exercer a função de coordenador técnico? 

FB:  "Não tinha carta branca e não me preocupo com isso. Eu acredito no trabalho em equipe com ou sem carta branca. O beneficiado tem de ser a instituição, o clube, sempre."

AQ: Como você avalia a base do Santos FC, no momento? 

FB: "O trabalho está sendo bem executado. A pandemia e o transferban atrapalharam de fato, um pouco. Estou saindo, mas o Felipe Gil é um excelente profissional. Tenho a certeza que ele irá realizar um maravilhoso trabalho."

AQ: O fato de você ter desembarcado na Vila Belmiro na gestão do ex-presidente Rollo, dificultou seu trabalho em algo com a nova gestão? 

FB: "Essa é uma excelente pergunta e me dá oportunidade de esclarecer. Eu não conhecia o presidente Orlando Rollo antes de vir para o Santos. Eu participei de um processo seletivo com o gerente Jorge Andrade, por videoconferência. Em 2018, tive uma breve passagem aqui pelo Santos e levamos o sub-17 pela primeira vez na história para disputar o mundial da categoria e também não conhecia o presidente José Carlos Peres. Também não conheço o atual presidente Rueda, então, eu acho que é muita especulação e na real, pouca gente procura apurar os fatos das respectivas contratações." 

AQ: Qual foi o trabalho que realmente tem ou teve seu dedo na montagem ou recuperação de uma das equipes de base do clube? 

FB: "Eu realmente somente contribui com a gestão da categoria sub-20, o ano passado, que iria disputar o Paulista da categoria. Cheguei no dia 19 de outubro e no dia seguinte, o Jorge Andrade (Gerente de Futebol) me deu a missão de montar um elenco e com técnico para a disputa da competição e com a ajuda do departamento administrativo, conseguimos reunir um elenco de jogadores que estavam fora do processo de alto rendimento. No primeiro dia de treino, tínhamos apenas 12 jogadores e dois foram embora porque estavam com sintomas de covid-19. Hoje, posso falar abertamente, o real discurso que fizemos aqueles atletas. Eu disse: No clube ninguém acredita em vocês. Só tem uma forma de mudarmos este cenário e é com trabalho e comprometimento. Com a comissão técnica liderada pelo treinador Thiago e o auxiliar Bruno, que foram fundamentais no processo, que foi o de fazer os atletas que estavam sendo pouco aproveitados se sentirem uteis, no final da história, fomos as semifinais do estadual. Resumo da ópera: O bom trabalho supera tudo."

AQ: Eu já disse que encontrei com você em Rio Claro, o ano retrasado, quando trabalhava na Ponte Preta e tu me perguntava de um lateral-direito para a disputa da Copa São Paulo. Falei do Sandro e você disse, trabalhou comigo e foi atrás dele para reforçar o time de Campinas. O jogador estava pra ser mandado embora do Santos, estreou no profissional. Você se sente um pouco vitorioso, por ele ter dado a volta por cima? 

FB: "Trabalhei com o Sandro no Mundial sub-17 em 2018. Jogador extremamente tático e determinado. Quando soube que estava encostado, procurei o agente, o pai e o atleta. Falei que ele ia dar um passo para trás, para dar dois a frente e agradeço a confiança de todos. Ver ele estreando no profissional me deixou muito emocionado. Fiquei feliz, porque ainda entendo um pouco de futebol (risos). Nunca desista de um atleta comprometido. Às vezes, ele pode não render em um primeiro instante, mas para quem trabalha sério, a recompensa sempre chegará."

AQ: Na sua opinião tem muito trabalho para reorganizar a base santista? O ídolo Léo, ex-lateral esquerdo, multi-campeão, sempre me diz que o forno está quente, mas está morno e precisa deixar ele com uma temperatura mais elevada para abastecer com maior quantidade e qualidade o time profissional... 

FB: "O Santos precisa de estrutura física e organizacional. O novo campo de grama sintética que o presidente Rollo disponibilizou já vai ajudar muito, porém, precisamos melhorar nosso fluxograma e canal de comunicação. Se fizer uma obra no CT Meninos da Vila, ganharão em qualidade. Só deixar claro que é uma crítica construtiva de quem já trabalhou duas vezes na instituição e fora este campo, que acabo de citar, nada mudou. Uma hora para de cair o 'rayo' e aí eu quero ver como irão fazer..."

AQ:  Como você avalia a transição da base para o profissional do Santos FC? 

FB: "O funcionário mais adequado e gabaritado para fazer isso era o Renato. No meu modo de ver, era o funcionário mais adorado do dia a dia do clube e que flutuava entre a base e o profissional com a aprovação de todos. Ele fazia esse trabalho muito bem. Mas acho que as pessoas pouco sabem disso, porque o Renato é extremamente discreto e não faz autopropaganda. Classifico como uma grande perda para o clube o seu desligamento do quadro de funcionários."

AQ: Como você imagina ou espera que será o ano da base do Peixe em 2021? 

FB: "Eu creio que talvez seja o ano mais difícil da história do Santos com a relação as competições de base, vide a temporada que se encerrou. As informações são de que nossa melhor geração é a dos nascidos em 2008.  O campeonato que começa agora em Março (Brasileiro sub-17) são jogadores nascidos em 2004. Temos um hiato de quatro anos para o sub-17 e um de cinco para o sub-20. Se o transferban não cair e se os atletas que hoje estão no sub-23, não descerem para jogar, aqueles que estiverem sendo pouco aproveitados, vai ser novamente de um ano de muita dificuldade, mas como te disse anteriormente, só vamos igualar com as outras grandes equipes de base do país, através do trabalho e do comprometimento e isso, o Élder, treinador do sub-17 e o Aarão, técnico do sub-20 sabem fazer muito bem."

AQ: Você é a favor do processo seletivo e não dá indicação nos profissionais que estão vindo para o clube?

FB: "Sou a favor do processo seletivo, porque cheguei no clube através dele, mas também sou a favor do processo de reciclagem de funcionários. Tem empregado no clube com mais de 15 anos de casa e o futebol evoluiu muito, a gestão evoluiu demais, então, se eu puder dar um conselho de quem há pouco tempo estava dentro do processo, a dica é:  Continuem com o processo seletivo, mas façam também um processo de reciclagem."

AQ: Qual o destino do Fábio Barrozo no futebol? Até porque no mercado enxuto e concorrido de hoje é incomum pedir demissão? 

FB: "Já perdemos o psicólogo da base para outro grande clube do país e meu destino não será diferente" finalizou.


 

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