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2014, O ANO QUE NUNCA ACABOU

Publicado às 13h50 desta terça-feira, 21 de julho de 2020.

Fim do 2014, começo de 2015. Transição na mudança da gestão Odílio Rodrigues Filho (substituto de Luís Álvaro que renunciou em 2013) para Modesto Roma Junior (2015-2017). O clube é surpreendido com ações judiciais movidas por Aranha, Arouca, Mena e Leandro Damião, quatro de seus principais jogadores. A gestão que havia assumido havia  pagou os salários atrasados referentes a outubro e novembro. Apesar disso, o Peixe ainda devia três meses em direitos de imagem, além dos valores referentes ao registro em carteira (CLT) de dezembro, férias e 13º que também não foram quitados. Com exceção de Aranha que explicou suas razões em uma live exclusiva conosco, os outros três, não aceitaram seguir com atrasos em seus vencimentos e procuram a Justiça do Trabalho.

Julho de 2020, pouco mais de cinco anos depois, um novo 'Déjà Vu' (palavra francesa que significa já viu). O goleiro Everson e o atacante Sasha deixam o Santos e entram na justiça com pedidos parecidos com os atletas supra-citados no meio da década. De três a cinco meses de direitos de imagem atrasados, falta de recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o salário na carteira pagos apenas em 30% do valor integral, nos meses de Abril, Maio e Junho, sem o acordo com os líderes do elenco.

Enquanto, outros times avançaram com academias bem aparelhadas, novos centros de treinamentos, arenas modernas e luxuosas, o Santos foi timidamente ficando para trás. Não consegue arcar com as dividas assumidas, gasta mais que arrecada com administrações que gerem as finanças do clube como um 'caixa de padaria' que você pega o dinheiro do dia, sem planejamento algum, nenhum tipo de contabilidade e usa. Com ou sem covid, uma hora a 'bolha' estouraria.

O projeto Sampaoli foi audacioso e muito bom. Na minha opinião, um dos grandes acertos e um dos melhores que ocuparam o cargo na história centenária do clube. Mas não trouxe título e eu não comemoro vice-campeonato, por isso não tem um adjetivo melhor.

Porém, a vinda do técnico da Seleção Argentina no Mundial da Rússia em 2018, teve um custo muito alto, incompatível com a realidade finacneira do clube que tinha ganho um 'upgrade' à partir do segundo semestre de 2018. O Santos venceu o rayo Rodrygo, na maior transação do futebol sul-americano da história e o clube recebeu quase R$ 200 milhões em duas parcelas anuais do Real Madrid. A jóia de 19 anos recém campeão da Liga Espanhola, salvou o clube de uma falência financeira que já se apresentava.

Entretanto, a 'caneta' de quem assina e assume o compromisso de pagar as contas, não é do técnico do time profissional. A pedido de 'Tio Sampa' que fez juras eternas a cidade de Santos e na primeira oportunidade, largou o clube, antes, porém, pediu duas, três dezenas de jogadores para montar o time e o alvinegro contratou 14 jogadores que só com direitos econômicos custam ou custaram (alguns ainda precisam ser pagos) quase R$ 80 milhões. Quantos desses efetivamente deram certo? Quatro? Creio que não mais que isso.

Participei como convidado nesta segunda-feira (20), do programa Fox Sports Rádio a convite do apresentador Benjamin Back e na ocasião, me manifestei dizendo que o argentino que hoje comanda o Galo era um dos culpados. Não estou eximindo a direção de sua responsabilidade. Absolutamente. Porém, além da sequela financeira deixada, o treinador não deu 'minutagem' a base. 

Em 2019, o Peixe teve o menor percentual de jogadores formados em casa dos últimos 20 anos em campeonato nacional. Sua média era de 35% a 50% e o ano passado, foram apenas 26% e muitos com mais de cinco anos como jogador profissional, casos de Gustavo Henrique e Lucas Veríssimo que negocia com o Benfica-POR. Também, não é menos verdade que o comandante técnico não colocou um revólver na cabeça de nenhum dirigente. Se contrataram é porque aceitaram a solicitação do homem do slogan 'amor pelo balón'.

O Santos não tem o mesmo apelo na mídia. Não recebe o mesmo valor das cotas de TV do trio de ferro e mesmo o patrocínio-máster não sendo a maior fonte de receita de uma instituição esportiva é o único dos gigantes do Estado a não conseguir este tipo de receita atualmente. Aliás, o Peixe só teve em duas oportunidades na década, este tipo de propaganda no uniforme - Uma em razão do efeito Neymar recheado de carisma e bom futebol do ex-camisa 11 revelado no clube e outro, graças ao deputado Ricardo Izar, que em 2017, foi o intermediário de conseguir para o Santos uma instituição bancaria estatual, que patrocinava mais de metade dos clubes da série A e com a mudança do governo federal, saiu do futebol.

Por falar em revelação, o Santos está aos poucos perdendo a chancela daquilo que melhor fez e faz ao longo dos anos. A de revelar raios e grandes craques. Os outros times que eram somente compradores, por 'N' razões, descobriram este quinhão. Até o Palmeiras chamado de 'primo-rico' pelos altos investimentos realizados nos últimos anos, tratou de estruturar a sua base, até então motivo de chacota e além de estar sendo vitorioso, começa a fabricar jogadores para o time de cima como o jovem Gabriel Verón, campeão mundial sub-17 que vinha sendo aproveitado pelo técnico Luxemburgo.

Além disso, o Santos ganhou muito dinheiro com vendas dos Meninos da Vila neste século, de Robinho a Rodrygo, passando por Neymar, mas também deixou para trás uma razoável quantia de dinheiro por imperícia na hora de renovar contratos com os seus bons jogadores – e que viraram negócios lucrativos na mão de outros clubes, como aconteceu recentemente com Bambu, onde o Athlético Paranaense abocanhou mais de R$ 35 milhões de lucro e o Peixe ficou com R$1,8 milhões de formador, além de R$ 7 milhões por ter entrado com uma ação contra o time do Sul do país.

Isto posto, qual foi meu objetivo com essas palavras. O Santos precisa sair da 'vibe' de apenas sobreviver, pois nem as contas consegue pagar. O mundo evoluiu, tomadas de decisões aconteceram em outras agremiações e o alvinegro se não regrediu em todos os aspectos, parou no tempo.

Não é critica nem indireta a nenhuma chapa ou associação política, que me abstenho propositadamente de escrever ou falar (gravei um vídeo no meu canal no youtube sobre), por enquanto, a eleição é só em dezembro e terei o tempo certo de me manifestar, mas está repetitivo o discurso de que união de lideranças é necessária porque o Santos está em crise. Desde o fim dos anos dourados, que o Santos comprava os melhores jogadores dos adversários como Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos, dois capitães da Seleção Brasileira em conquistas vitoriosas em Mundiais, que não foram formados no templo sagrado de Vila Belmiro, que o alvinegro está em crise financeira. Nos últimos 45 anos quando não esteve?

Que a divindade celestial se não for santista, tem um carinho muito especial com o clube, porque passar por tudo isso, por tanto tempo e ainda não ter tido o dissabor de uma série B, ao contrário dos rivais, só DEUS pode explicar. Enquanto isso, o clube sobrevive e cada vez mais com menos saúde financeira e o acúmulo de dividas que só aumenta, pronto, falei.

As glórias do passado precisam ser reverenciadas sempre, mas, precisamos (e eu me incluo nisso porque sou assumidamente santista), fazer um presente e um futuro melhor. 





 

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